Governança em Rede: por que o maior desafio é cultural
As redes interorganizacionais de cooperação — formadas por cooperativas, mantenedoras de hospitais e escolas filantrópicas, OSCs, entidades religiosas, fundações e institutos — vêm se consolidando como uma estratégia eficaz para ampliar competitividade e impacto social. Ao promover ganhos de escala e eficiência coletiva, essas redes permitem que organizações distintas atuem de forma coordenada em ambientes cada vez mais complexos.
O modelo de governança em rede se caracteriza por uma estrutura horizontal, colaborativa, descentralizada e interdependente. Seu objetivo é integrar múltiplos atores em torno de propósitos comuns, sem eliminar a identidade e a autonomia de cada instituição. Essa combinação entre independência e alinhamento estratégico é o que torna o modelo especialmente poderoso — e, ao mesmo tempo, desafiador.
O que é governança em rede e como ela funciona
Na prática, a governança em rede permite que cada organização preserve sua personalidade jurídica e capacidade de gestão, enquanto atua segundo diretrizes compartilhadas. Isso amplia a escala das iniciativas, melhora a eficiência operacional e potencializa o impacto coletivo.
Essa lógica cria um equilíbrio delicado entre flexibilidade local e coesão estratégica. Diferente de estruturas hierárquicas tradicionais, a coordenação não depende de autoridade central, mas de acordos, confiança e mecanismos de governança compartilhada.
O papel da liderança nas redes interorganizacionais
Nesse contexto, a liderança deixa de ser baseada em comando e controle e assume um papel de facilitador e articulador. O líder em rede precisa:
- Mediar interesses diversos
- Construir consensos
- Estimular a cooperação
- Promover alinhamento estratégico
Trata-se de uma mudança profunda de mentalidade. Influenciar passa a ser mais importante do que controlar, e a capacidade de articulação supera a autoridade formal.
O verdadeiro desafio: cultura organizacional
Apesar de existirem metodologias bem estruturadas para implementação de redes, o principal obstáculo não é técnico — é cultural.
As redes interorganizacionais são autogeridas. Isso significa que sua governança é exercida pelos próprios membros, que geralmente vêm de organizações com culturas individualistas, competitivas e hierárquicas. Esse histórico influencia diretamente o comportamento dentro da rede.
É comum observar dois desvios:
- Líderes que tentam reproduzir modelos centralizadores
- Líderes que priorizam interesses individuais em detrimento do coletivo
Ambos comprometem o desempenho da rede.
Culturas organizacionais e o choque nas redes
Os conceitos de Charles Handy, apresentados no livro Deuses da Administração, ajudam a compreender esse cenário.
Handy descreve quatro tipos de cultura organizacional:
- Zeus (cultura do poder): centralização, decisões rápidas e liderança forte
- Apolo (cultura da função): estabilidade, գործընթաց e hierarquia
- Atena (cultura da tarefa): foco em resultados, equipes e resolução de problemas
- Dionísio (cultura existencial): valorização do indivíduo e autonomia extrema
Em organizações tradicionais, essas culturas podem coexistir sob uma liderança central. Já nas redes, essa referência desaparece. O resultado é um ambiente onde líderes precisam operar sem controle direto, exigindo maior maturidade relacional e alinhamento de propósito.
Como fortalecer a governança em rede
Para que redes interorganizacionais gerem resultados consistentes, é fundamental investir em alguns pilares:
- Construção de confiança entre os membros
- Clareza de propósito e objetivos compartilhados
- Regras de governança bem definidas
- Desenvolvimento de lideranças colaborativas
- Cultura orientada ao coletivo
Mais do que estrutura, o sucesso depende da qualidade das relações.
Conclusão: redes são sobre pessoas, não estruturas
A governança em rede não falha por falta de método, mas por ausência de alinhamento cultural. O verdadeiro diferencial competitivo está na capacidade de desenvolver líderes preparados para atuar sem autoridade formal, construir consensos e gerar valor coletivo.
No fim, redes interorganizacionais bem-sucedidas não são aquelas melhor desenhadas no papel, mas aquelas sustentadas por confiança, cooperação e compromisso genuíno entre seus membros.



